Um blog sobre escritores, livros, leituras, opiniões…

Modernismo

Eduardo Mota digitalizou

Amadeo de Souza-Cardoso, Les Chevaliers

Modernismo

 

         A definição e caracterização periodológica de MODERNISMO apresenta dificuldades só comparáveis às que encontrámos quando analisámos o Romantismo; pela sua abrangência, pela sua dispersão geocultural e até pelas suas contradições internas, o Modernismo  constitui, antes de mais, um conceito difuso. (…) Vicky Mahaffey escreve : “ No seu sentido positivo, ‘modernismo’ assinala um corte revolucionário com ortodoxias estabelecidas, uma celebração do presente e uma investigação experimental do futuro. Como valor negativo, ‘modernismo’ tem conotada uma incoerente e mesmo oportunista heterodoxia, uma anulação da disciplina da tradição.”

 

         Numa perspectiva de largo alcance, pode dizer-se que o Modernismo se estende desde finais do século XIX ( cerca de 1890, segundo alguns autores), até depois da Segunda Guerra Mundial, mesmo até finais dos anos 50, quando vão aflorando teorias e práticas culturais classificadas como pós-modernistas.

         Numa perspectiva mais restrita, o Modernismo estende-se das vésperas da Primeira Guerra Mundial até à Segunda Guerra Mundial, sendo que os anos 20 e 30 são o seu tempo mais fecundo.

         Em Portugal, o aparecimento e a maturação do Modernismo relacionam-se com a relevância cultural assumida por algumas revistas e naturalmente pelos autoras que nelas colaboraram.

         Os marcos decisivos da afirmação modernista são constituídos em 1915, pelos dois números da revista Orpheu ( um terceiro já em provas acabou por não vir a público).

         A par desta, outras revistas servem de lugar de manifestação literária e doutrinária  do  Modernismo  português:  Centauro  e  Exílio ( 1916),  Contemporânea ( 1922-1926) e Athena (1924- 1925); entre 1927 e 1940 publica-se a revista Presença, que não só faz ecoar o legado cultural da Geração do Orpheu como, segundo alguns autores, pode ser considerada o órgão cultural do segundo Modernismo português.

 

         Por outras palavras: a pluralidade de “ ismos” que povoam o Modernismo determina também uma interacção de linguagens em que artes plásticas, literatura, arquitectura, artes gráficas, publicidade, cinema, etc., estritamente interagem e se complementam: a actividade de Almada Negreiros como escritor e como artista plástico, a colaboração de Santa-Rita Pintor no n.º2 de Orpheu e no Portugal Futurista, a atenção que Almada consagrou, como crítico e polemista, à obra de Amadeo de Souza-Cardoso, também a presença, em poemas de Mário de Sá-Carneiro ( designadamente no poema “Manucure”), de fragmentos de textos publicitários, de títulos de imprensa, etc., são manifestações muito significativas dessa interacção de linguagens.

(…)

          Directamente correlacionados com este tempo de convulsões sociais, de conflitos armados, de regimes políticos autoritários – com alguns dos quais vieram a colaborar escritores modernistas: Almada Negreiros, Marinetti, Ezra Pound, etc.-, os temas dominantes do Modernismo aprofundam os sentidos nucleares que o constituem. A euforia do moderno é, naturalmente, um desses temas, um moderno que é o de realidades civilizacionais trepidantemente novas e pujantes, celebradas à maneira de Walt Whitman; em muitos casos, contudo, essa euforia desliza rapidamente para o tédio, situado, conforme ficou referido, no estádio final de uma evolução que chega a desembocar na dissolução do sujeito (“ Não sou nada. Nunca serei nada”, dizem os versos de abertura de “ Tabacaria”) e no suicídio também já mencionado; o que vem a ser o desenlace patético de um esforço de autoconhecimento, desenvolvido ( muitas vezes de uma forma obscura, interiorizada e desligada do social) pelo homem e pela personagem do Modernismo. De um modo geral, o que estes sentidos temáticos denunciam é uma aguda crise do sujeito, projectada em tópicos como a máscara (“Quando quis tirar a máscara,/Estava pegada à cara”, diz Álvaro de Campos na Tabacaria), o retrato, o espelho – em que Vitangelo Moscarda de Pirandello se descobre “ Um, ninguém e cem mil” – e a procura labiríntica do outro em si mesmo.

Carlos Reis, O Conhecimento da Literatura ( Texto com supressões)

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 Indicação dos limites cronológicos do Modernismo:

Perspectiva alargada:

®    desde finais do século XIX ( + 1890) até finais dos anos 50.

Perspectiva mais restrita:

®    desde vésperas da Primeira Guerra Mundial até à Segunda Guerra Mundial.

 

O papel das revistas literárias no nascimento, consolidação e difusão do Modernismo em Portugal, com especial relevo para o Orpheu.

 

A interacção de linguagens estéticas como uma das características dominantes do Modernismo.

        Levantamento dos temas dominantes do Modernismo:

®      a euforia do moderno que rapidamente desliza para o tédio existencial;

®      a dissolução do sujeito que conduz, muitas vezes, ao suicídio;

®      o esforço patético do autoconhecimento;

®      a crise aguda do sujeito projectada.

·     na máscara

·     no retrato

·     no espelho

·     na procura labiríntica do outro em si mesmo.

î fragmentação do eu

 

         É ainda de referir, e continuando a seguir Carlos Reis, que o Modernismo se caracteriza, pois, por uma viragem para o interior do sujeito, para a corrente da consciência, quase considerada impossível numa época pré-freudiana. Esta viragem introspectiva causa a ruptura dos laços convencionais do indivíduo com a sociedade.

         Para além destes aspectos, o Modernismo leva a cabo uma espécie de reinvenção da linguagem, ao nível da forma, da expressão, introduzindo no domínio do literário uma pretensa desconstrução sintáctica e as linguagens jornalística e publicitária.

 


O presidente Barak Obama falou ontem aos

alunos da América

FOTO: http://biografiaonline.blogspot.com/2009/11/barack-obama.html

Publicado em 09 de Setembro de 2009
“Sei que para muitos de vocês hoje é o primeiro dia de aulas, e para os que entraram para o jardim infantil, para a escola primária ou secundária, é o primeiro dia numa nova escola, por isso é compreensível que estejam um pouco nervosos. Também deve haver alguns alunos mais velhos, contentes por saberem que já só lhes falta um ano. Mas, estejam em que ano estiverem, muitos devem ter pena por as férias de Verão terem acabado e já não poderem ficar até mais tarde na cama.Também conheço essa sensação. Quando era miúdo, a minha família viveu alguns anos na Indonésia e a minha mãe não tinha dinheiro para me mandar para a escola onde andavam os outros miúdos americanos. Foi por isso que ela decidiu dar-me ela própria umas lições extras, segunda a sexta-feira, às 4h30 da manhã.A ideia de me levantar àquela hora não me agradava por aí além. Adormeci muitas vezes sentado à mesa da cozinha. Mas quando eu me queixava a minha mãe respondia-me: “Olha que isto para mim também não é pêra doce, meu malandro…”Tenho consciência de que alguns de vocês ainda estão a adaptar-se ao regresso às aulas, mas hoje estou aqui porque tenho um assunto importante a discutir convosco. Quero falar convosco da vossa educação e daquilo que se espera de vocês neste novo ano escolar.Já fiz muitos discursos sobre educação, e falei muito de responsabilidade. Falei da responsabilidade dos vossos professores de vos motivarem, de vos fazerem ter vontade de aprender. Falei da responsabilidade dos vossos pais de vos manterem no bom caminho, de se assegurarem de que vocês fazem os trabalhos de casa e não passam o dia à frente da televisão ou a jogar com a Xbox. Falei da responsabilidade do vosso governo de estabelecer padrões elevados, de apoiar os professores e os directores das escolas e de melhorar as que não estão a funcionar bem e onde os alunos não têm as oportunidades que merecem.No entanto, a verdade é que nem os professores e os pais mais dedicados, nem as melhores escolas do mundo são capazes do que quer que seja se vocês não assumirem as vossas responsabilidades. Se vocês não forem às aulas, não prestarem atenção a esses professores, aos vossos avós e aos outros adultos e não trabalharem duramente, como terão de fazer se quiserem ser bem sucedidos.

E hoje é nesse assunto que quero concentrar-me: na responsabilidade de cada um de vocês pela sua própria educação.

Todos vocês são bons em alguma coisa. Não há nenhum que não tenha alguma coisa a dar. E é a vocês que cabe descobrir do que se trata. É essa oportunidade que a educação vos proporciona.

Talvez tenham a capacidade de ser bons escritores – suficientemente bons para escreverem livros ou artigos para jornais -, mas se não fizerem o trabalho de Inglês podem nunca vir a sabê-lo. Talvez sejam pessoas inovadoras ou inventores – quem sabe capazes de criar o próximo iPhone ou um novo medicamento ou vacina -, mas se não fizerem o projecto de Ciências podem não vir a percebê-lo. Talvez possam vir a ser mayors ou senadores, ou juízes do Supremo Tribunal, mas se não participarem nos debates dos clubes da vossa escola podem nunca vir a sabê-lo.

No entanto, escolham o que escolherem fazer com a vossa vida, garanto-vos que não será possível a não ser que estudem. Querem ser médicos, professores ou polícias? Querem ser enfermeiros, arquitectos, advogados ou militares? Para qualquer dessas carreiras é preciso ter estudos. Não podem deixar a escola e esperar arranjar um bom emprego. Têm de trabalhar, estudar, aprender para isso.

E não é só para as vossas vidas e para o vosso futuro que isto é importante. O que vocês fizerem com os vossos estudos vai decidir nada mais nada menos que o futuro do nosso país. Aquilo que aprenderem na escola agora vai decidir se enquanto país estaremos à altura dos desafios do futuro.

Vão precisar dos conhecimentos e das competências que se aprendem e desenvolvem nas ciências e na matemática para curar doenças como o cancro e a sida e para desenvolver novas tecnologias energéticas que protejam o ambiente. Vão precisar da penetração e do sentido crítico que se desenvolvem na história e nas ciências sociais para que deixe de haver pobres e sem-abrigo, para combater o crime e a discriminação e para tornar o nosso país mais justo e mais livre. Vão precisar da criatividade e do engenho que se desenvolvem em todas as disciplinas para criar novas empresas que criem novos empregos e desenvolvam a economia.

Precisamos que todos vocês desenvolvam os vossos talentos, competências e intelectos para ajudarem a resolver os nossos problemas mais difíceis. Se não o fizerem – se abandonarem a escola -, não é só a vocês mesmos que estão a abandonar, é ao vosso país.

Eu sei que não é fácil ter bons resultados na escola. Tenho consciência de que muitos têm dificuldades na vossa vida que dificultam a tarefa de se concentrarem nos estudos. Percebo isso, e sei do que estou a falar. O meu pai deixou a nossa família quando eu tinha dois anos e eu fui criado só pela minha mãe, que teve muitas vezes dificuldade em pagar as contas e nem sempre nos conseguia dar as coisas que os outros miúdos tinham. Tive muitas vezes pena de não ter um pai na minha vida. Senti-me sozinho e tive a impressão que não me adaptava, e por isso nem sempre conseguia concentrar-me nos estudos como devia. E a minha vida podia muito bem ter dado para o torto.

Mas tive sorte. Tive muitas segundas oportunidades e consegui ir para a faculdade, estudar Direito e realizar os meus sonhos. A minha mulher, a nossa primeira-dama, Michelle Obama, tem uma história parecida com a minha. Nem o pai nem a mãe dela estudaram e não eram ricos. No entanto, trabalharam muito, e ela própria trabalhou muito para poder frequentar as melhores escolas do nosso país.

Alguns de vocês podem não ter tido estas oportunidades. Talvez não haja nas vossas vidas adultos capazes de vos dar o apoio de que precisam. Quem sabe se não há alguém desempregado e o dinheiro não chega. Pode ser que vivam num bairro pouco seguro ou os vossos amigos queiram levar-vos a fazer coisas que vocês sabem que não estão bem.

Apesar de tudo isso, as circunstâncias da vossa vida – o vosso aspecto, o sítio onde nasceram, o dinheiro que têm, os problemas da vossa família – não são desculpa para não fazerem os vossos trabalhos nem para se portarem mal. Não são desculpa para responderem mal aos vossos professores, para faltarem às aulas ou para desistirem de estudar. Não são desculpa para não estudarem.

A vossa vida actual não vai determinar forçosamente aquilo que vão ser no futuro. Ninguém escreve o vosso destino por vocês. Aqui, nos Estados Unidos, somos nós que decidimos o nosso destino. Somos nós que fazemos o nosso futuro.

E é isso que os jovens como vocês fazem todos os dias em todo o país. Jovens como Jazmin Perez, de Roma, no Texas. Quando a Jazmin foi para a escola não falava inglês. Na terra dela não havia praticamente ninguém que tivesse andado na faculdade, e o mesmo acontecia com os pais dela. No entanto, ela estudou muito, teve boas notas, ganhou uma bolsa de estudos para a Universidade de Brown, e actualmente está a estudar Saúde Pública.

Estou a pensar ainda em Andoni Schultz, de Los Altos, na Califórnia, que aos três anos descobriu que tinha um tumor cerebral. Teve de fazer imensos tratamentos e operações, uma delas que lhe afectou a memória, e por isso teve de estudar muito mais – centenas de horas a mais – que os outros. No entanto, nunca perdeu nenhum ano e agora entrou na faculdade.

E também há o caso da Shantell Steve, da minha cidade, Chicago, no Illinois. Embora tenha saltado de família adoptiva para família adoptiva nos bairros mais degradados, conseguiu arranjar emprego num centro de saúde, organizou um programa para afastar os jovens dos gangues e está prestes a acabar a escola secundária com notas excelentes e a entrar para a faculdade.

A Jazmin, o Andoni e a Shantell não são diferentes de vocês. Enfrentaram dificuldades como as vossas. Mas não desistiram. Decidiram assumir a responsabilidade pelos seus estudos e esforçaram-se por alcançar objectivos. E eu espero que vocês façam o mesmo.

É por isso que hoje me dirijo a cada um de vocês para que estabeleça os seus próprios objectivos para os seus estudos, e para que faça tudo o que for preciso para os alcançar. O vosso objectivo pode ser apenas fazer os trabalhos de casa, prestar atenção às aulas ou ler todos os dias algumas páginas de um livro. Também podem decidir participar numa actividade extracurricular, ou fazer trabalho voluntário na vossa comunidade. Talvez decidam defender miúdos que são vítimas de discriminação, por serem quem são ou pelo seu aspecto, por acreditarem, como eu acredito, que todas as crianças merecem um ambiente seguro em que possam estudar. Ou pode ser que decidam cuidar de vocês mesmos para aprenderem melhor. E é nesse sentido que espero que lavem muitas vezes as mãos e que não vão às aulas se estiverem doentes, para evitarmos que haja muitas pessoas a apanhar gripe neste Outono e neste Inverno.

Mas decidam o que decidirem gostava que se empenhassem. Que trabalhassem duramente. Eu sei que muitas vezes a televisão dá a impressão que podemos ser ricos e bem-sucedidos sem termos de trabalhar – que o vosso caminho para o sucesso passa pelo rap, pelo basquetebol ou por serem estrelas de reality shows -, mas a verdade é que isso é muito pouco provável. A verdade é que o sucesso é muito difícil. Não vão gostar de todas as disciplinas nem de todos os professores. Nem todos os trabalhos vão ser úteis para a vossa vida a curto prazo. E não vão forçosamente alcançar os vossos objectivos à primeira.

No entanto, isso pouco importa. Algumas das pessoas mais bem-sucedidas do mundo são as que sofreram mais fracassos. O primeiro livro do Harry Potter, de J. K. Rowling, foi rejeitado duas vezes antes de ser publicado. Michael Jordan foi expulso da equipa de basquetebol do liceu, perdeu centenas de jogos e falhou milhares de lançamentos ao longo da sua carreira. No entanto, uma vez disse: “Falhei muitas e muitas vezes na minha vida. E foi por isso que fui bem-sucedido.”

Estas pessoas alcançaram os seus objectivos porque perceberam que não podemos deixar que os nossos fracassos nos definam – temos de permitir que eles nos ensinem as suas lições. Temos de deixar que nos mostrem o que devemos fazer de maneira diferente quando voltamos a tentar. Não é por nos metermos num sarilho que somos desordeiros. Isso só quer dizer que temos de fazer um esforço maior por nos comportarmos bem. Não é por termos uma má nota que somos estúpidos. Essa nota só quer dizer que temos de estudar mais.

Ninguém nasce bom em nada. Tornamo-nos bons graças ao nosso trabalho. Não entramos para a primeira equipa da universidade a primeira vez que praticamos um desporto. Não acertamos em todas as notas a primeira vez que cantamos uma canção. Temos de praticar. O mesmo acontece com o trabalho da escola. É possível que tenham de fazer um problema de Matemática várias vezes até acertarem, ou de ler muitas vezes um texto até o perceberem, ou de fazer um esquema várias vezes antes de poderem entregá-lo.

Não tenham medo de fazer perguntas. Não tenham medo de pedir ajuda quando precisarem. Eu todos os dias o faço. Pedir ajuda não é um sinal de fraqueza, é um sinal de força. Mostra que temos coragem de admitir que não sabemos e de aprender coisas novas. Procurem um adulto em quem confiem – um pai, um avô ou um professor ou treinador – e peçam-lhe que vos ajude.

E mesmo quando estiverem em dificuldades, mesmo quando se sentirem desencorajados e vos parecer que as outras pessoas vos abandonaram – nunca desistam de vocês mesmos. Quando desistirem de vocês mesmos é do vosso país que estão a desistir.

A história da América não é a história dos que desistiram quando as coisas se tornaram difíceis. É a das pessoas que continuaram, que insistiram, que se esforçaram mais, que amavam demasiado o seu país para não darem o seu melhor.

É a história dos estudantes que há 250 anos estavam onde vocês estão agora e fizeram uma revolução e fundaram este país. É a dos estudantes que estavam onde vocês estão há 75 anos e ultrapassaram uma depressão e ganharam uma guerra mundial, lutaram pelos direitos civis e puseram um homem na Lua. É a dos estudantes que estavam onde vocês estão há 20 anos e fundaram a Google, o Twitter e o Facebook e mudaram a maneira como comunicamos uns com os outros.

Por isso hoje quero perguntar-vos qual é o contributo que pretendem fazer. Quais são os problemas que tencionam resolver? Que descobertas pretendem fazer? Quando daqui a 20 ou a 50 ou a 100 anos um presidente vier aqui falar, que vai dizer que vocês fizeram pelo vosso país?

As vossas famílias, os vossos professores e eu estamos a fazer tudo o que podemos para assegurar que vocês têm a educação de que precisam para responder a estas perguntas. Estou a trabalhar duramente para equipar as vossas salas de aulas e pagar os vossos livros, o vosso equipamento e os computadores de que vocês precisam para estudar. E por isso espero que trabalhem a sério este ano, que se esforcem o mais possível em tudo o que fizerem. Espero grandes coisas de todos vocês. Não nos desapontem. Não desapontem as vossas famílias e o vosso país. Façam-nos sentir orgulho em vocês. Tenho a certeza que são capazes.”

Aqui ficam os meus desejos de um bom ano e muitas felicidades no regresso à vossa (nossa) escola.

“Janeiro 12

«O que eu quero principalmente é que vivam felizes».

Não lhes disse talvez estas palavras, mas foi isto o que eu quis dizer. No sumário, pus assim: «Conversa amena com os rapazes». E pedi, mais que tudo, uma coisa que eu costumo pedir aos meus alunos: lealdade. Lealdade para comigo, e lealdade de cada um para cada outro. Lealdade que não se limita a não enganar o professor ou o companheiro: lealdade activa, que nos leva, por exemplo, a contar abertamente os nossos pontos fracos ou a rir só quando temos vontade (e então rir mesmo, porque não é lealdade deixar então de rir) ou a não ajudar falsamente o companheiro.

«Não sou, junto de vós, mais do que um camarada um bocadinho mais velho. Sei coisas que vocês não sabem, do mesmo modo que vocês sabem coisas que eu não sei ou já esqueci. Estou aqui para ensinar umas e aprender outras. Ensinar, não: falar delas. Aqui e no pátio e na rua e no vapor e no comboio e no jardim e onde quer que nos encontremos».

Não acabei sem lhes fazer notar que «a aula é nossa». Que a todos cabe o direito de falar, desde que fale um de cada vez e não corte a palavra ao que está com ela.”

Sebastião da Gama, Diário

Para ajudar à leitura e compreensão de Aparição de Vergílio Ferreira, deixo-vos mais um excelente programa da RTP2 da série Grandes Livros.

É um programa um pouco longo mas vale a pena.

LITERATURA

PORTUGUESA

Projecto Individual de Leitura

 

100 anos depois…

Autores que, de algum modo, estão ligados à história da Escola: Mário Sá-Carneiro, Aquilino Ribeiro, José Rodrigues Miguéis, Rómulo de Carvalho (António Gedeão), Mário Dionísio, Jorge de Sena, José Cardoso Pires, Vergílio Ferreira, Fernando Namora, Urbano Tavares Rodrigues, Almeida Faria, António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Manuel dos Santos Lima, João de Aguiar…

OBRAS RECOMENDADAS

  POESIA

António Gedeão, Afonso Lopes Vieira, Al Berto, Eugénio de Andrade, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, João de Deus, João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel Magalhães, José Régio, Luísa Neto Jorge, Mário Cesariny Vasconcelos, Mário Sá-Carneiro, Miguel Torga, Raul de Carvalho, Ruy Cinatti, Sebastião da Gama, Sophia de Mello Breyner Andersen, […]

TEXTOS DE TEATRO

Almada Negreiros – Deseja-se Mulher

Branquinho da Fonseca – Curva do Céu

Carlos Selvagem – Dulcineia ou a Última Aventura de D.Quixote

David Mourão-Ferreira – O Irmão

Fiama Hasse Pais Brandão – Os Chapéus de Chuva

Jorge de Sena – O Indesejado

José Régio – O Meu Caso

José Saramago – In Nomine Dei

Luísa Costa Gomes – Nunca Nada de Ninguém

Natália Correia – Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente;– O Encoberto

Romeu Correia – O Vagabundo das Mãos de Oiro

Vicente Sanches – A Birra do Morto

Yvette Centeno – As Três Cidras do Amor

 F. Garcia Lorca, A Casa de Bernarda Alba

J.-B Molière, Dom João

William Shakespeare, Romeu e Julieta

                                           Hamlet

                                           Romeu e Julieta

  NARRATIVAS

Afonso Lopes Vieira, O Romance de Amadis

Alexandre Herculano, Lendas e Narrativas

                                             O Bobo

                                            O Monge de Cister

                                            Eurico, O Presbítero

António Brito, O céu não pode esperar

António Lobo Antunes, As Naus

Aquilino Ribeiro, Príncipes de Portugal

                                   O Romance da Raposa

                                  Cinco Réis  de Gente

Eça de Queirós, Contos

                                 A Cidade e as Serras

Fernando Namora, Resposta a Matilde

                              Retalhos da Vida de um Médico

Fernando Campos, A Casa do Pó

                                       A Esmeralda Partida

Jorge de Sena, O Físico Prodigioso

José Cardoso Pires, O Burro-Em-Pé;

                                        Jogos de Azar

                                      O Delfim

José Gomes Ferreira, As Aventuras de João Sem Medo 

                                            O Mundo dos Outros

José Rodrigues dos Santos, A Ilha das Trevas

                                                        A Filha do Capitão

José Rodrigues Miguéis,  A Escola do Paraíso

                                          Leah e Outras Histórias

Manuel Alegre, O Homem do País Azul

                                    Alma

Manuel da Fonseca, O Fogo e as Cinzas

Maria João M. Pardal, Ezequiel Passos Marinho, A Comenda Secreta

Mário de Carvalho, Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde

                                         Contos Vagabundos

               A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho

Mário Dionísio, Dia Cinzento e Outros Contos

                                 Monólogo a Duas Vozes

Miguel Torga, Novos Contos da Montanha

Oliveira Martins, Os Filhos de D. João I

Sophia de Mello Breyner Andresen, Contos Exemplares

                                          Histórias da Terra e do Mar

Urbano Tavares Rodrigues, As Aves da Madrugada

Vergílio Ferreira, Contos


LITERATURA ESTRANGEIRA

 Agatha Christie,  Um Crime no Expresso do Oriente

Albert Camus,  O Estrangeiro

Aldous Huxley,  O Admirável Mundo Novo

Alexandre Dumas,  O Conde de Monte Cristo

Charles Dickens,  Oliver Twist

Daniel Defoe,  Robinson Crusoe

Dejanirah Couto, História de Lisboa

Edgar Allan Poe,  Contos Fantásticos

Emily Brontë,  O Monte dos Vendavais

Ernest Hemingway,  Por Quem os Sinos Dobram

Fiódor Dostoievsky,  O Jogador

Franz Kafka,  Metamorfose

Gabriel Garcia Marquez,  Cem Anos de Solidão

George Orwell,  Mil Novecentos e Oitenta e Quatro

Hermann Hesse,  Siddhartha

Isabel Allende,  A Casa dos Espíritos

Jane Austen,  Emma

                             Orgulho e Preconceito

John Steinbeck,  A um Deus Desconhecido

Jostein Gaarder,  O Mundo de Sofia

J. R. R Tolkien,  O Senhor dos Anéis

J. Swift,  Viagens de Gulliver

Leão Tolstoi,  Contos

Lewis Carroll,  Alice no Pais das Maravilhas

Luís Sepúlveda,  O Velho que Lia Romances de Amor

História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar

Marguerite Yourcenar,  Contos Orientais

Mark Twain, Tom Sawyer

Miguel Cervantes,  D. Quixote de La Mancha

Óscar Wilde,  O Retrato de Dorian Gray

Patrick Süskind,  O Perfume

Umberto Eco,  O nome da Rosa 

Walter Scott, Ivanhoe

                           O Cavaleiro da Escócia

         Crónicas, cartas, biografias, autobiografias, memórias, diários

 António Lobo Antunes,  Livro de Crónicas

António Alçada Baptista, Peregrinação Interior

Aquilino Ribeiro: Abóboras no Telhado; Geografia Sentimental

Fernando Namora: A Nave de Pedra; Diálogo em Setembro; 

                                Cavalgada Cinzenta

Fernando Pessoa,  Cartas de Amor de Fernando Pessoa

José Gomes Ferreira,  A Memória das Palavras 

                                             O Gosto de Falar de Mim

José Rodrigues Miguéis,  Um Homem Sorri à Morte

José Saramago – Deste Mundo e do Outro

Maria Isabel Barreno – Novas Cartas Portuguesas (escritas em colaboração com Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta).

Maria Judite de Carvalho – A Janela Fingida

Oliveira Martins: A Vida de Nuno Álvares Pereira; O Príncipe Perfeito

Raul Brandão – A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore ; Memórias

 Anne Frank,  Diário de Anne Frank

 NOTA: Cada aluno poderá apresentar as suas sugestões que serão (ou não) aceites consoante a natureza e valor da obra proposta.

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CONTRATO DE LEITURA

 OBRAS DE REFERÊNCIA PARA O CONTRATO DE LEITURA NO ÂMBITO DO PROGRAMA DE LÍNGUA PORTUGUESA PARA O ENSINO SECUNDÁRIO

LITERATURA NACIONAL

AGUIAR, João,  A Voz dos Deuses

ALEGRE, Manuel,  O Homem do País Azul: contos

ANDRADE, Eugénio,  Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner,  Contos Exemplares 

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner,  Obra Poética

ANTUNES, António Lobo,  Livro de Crónicas

BELO, Ruy,  Obra Poética I e II  

BRANCO, Camilo Castelo,  Eusébio Macário

BRANCO, Camilo Castelo,  Novelas do Minho

CARVALHO, Mário de Carvalho, Contos Vagabundos

ESPANCA, Florbela,  Livro de Mágoas

FERREIRA, José Gomes,  As Aventuras de João Sem Medo 

FERREIRA, José Gomes,  O Mundo dos Outros

FERREIRA, Vergílio,  Contos

FONSECA, Manuel,  O Fogo e as Cinzas

GARRETT, Almeida,  Viagens na Minha Terra

GERSÃO, Teolinda,  Histórias de Ver e Andar – Contos  

GOMES, Luísa Costa,  Contos Outra Vez: 1984-1997

LEIRIA, Mário-Henrique de,  Contos do Gin-Tonic

LOURENÇO, Eduardo,  A Nau de Ícaro

MACHADO, Dinis,  O que diz Molero  

MIGUÉIS, José Rodrigues. Gente de Terceira Classe

MIGUÉIS, José Rodrigues,  Léah e Outras Histórias

MONTEIRO, Manuel Hermínio,  Rosa do Mundo: 2001 Poemas para o Futuro

NAMORA, Fernando,  Resposta a Matilde

NEGREIROS, Almada,  Deseja-se Mulher

NEGREIROS, Almada,  Contos e Novelas  

O’NEILL, Alexandre,  Poesias Completas

OLIVEIRA, Carlos de,  Uma Abelha na Chuva

PACHECO, Fernando Assis,  Trabalhos e Paixões de Benito Prada

PESSOA, Fernando,  Cartas de Amor

PIRES, José Cardoso,  O Delfim

QUEIRÓS, Eça de,  Contos

QUEIRÓS, Eça de,  A Cidade e as Serras

QUEIRÓS, Eça de,  A Relíquia

RÉGIO, José,  Poemas de Deus e do Diabo

RIBEIRO, Aquilino,  O Malhadinhas

SARAMAGO, José,   O Ano da Morte de Ricardo Reis

SARAMAGO, José,  Jangada de Pedra

SENA, Jorge de,  Sinais de Fogo  

SENA, Jorge de,  O Físico Prodigioso

TORGA, Miguel,  Novos Contos da Montanha

VICENTE, Gil,  Farsa de Inês Pereira  

ZAMBUJAL, Mário,  Crónica dos Bons Malandros

LITERATURAS DE LÍNGUA PORTUGUESA

AGUALUSA, José Eduardo,  O Ano em Zumbi Tomou o Rio

ALMEIDA, Germano,  A Ilha Fantástica

AMADO, Jorge,  Capitães de Areia

ANDRADE, Carlos Drummond,  Antologia Poética

ASSIS, Machado de,  Memórias Póstumas de Brás Cubas

COUTO, Mia,  Mar me Quer

COUTO, Mia,  Cronicando

LISPECTOR, Clarice,  Contos

MEIRELES, Cecília,  Romanceiro da Inconfidência

MORAIS, Vinícius de,  Antologia Poética

PEPETELA,  A Montanha da Água Lilás

RIBEIRO, João Ubaldo,  Livro de Histórias

RUI, Manuel,  Quem me Dera ser Onda

VASCONCELOS, José Mauro de,  O Meu Pé de Laranja Lima 

LITERATURA UNIVERSAL

ALLENDE, Isabel,  A Casa dos Espíritos

AUSTEN, Jane,  Emma

AUSTEN, Jane,  Orgulho e Preconceito

BALLESTER, Gonzalo Torrente,  Crónica do Rei Pasmado

BRADBURY, Ray,  Fahrenheit 451

BRONTË, Charlotte, Jane Eyre

BRONTË, Emily,  O Monte dos Vendavais

CALVINO, Ítalo,  O Visconde Cortado ao Meio

CAMUS, Albert,  O Estrangeiro

CARROLL, Lewis,  Alice no Pais das Maravilhas

CERVANTES, Miguel,  D. Quixote de La Mancha

CHRISTIE, Agatha,  Um Crime no Expresso do Oriente

DEFOE, Daniel, Robinson Crusoe

DICKENS, Charles, Oliver Twist

DOSTOIEVSKY, Fiódor,  O Jogador

DOYLE, Arthur Conan, O Cão dos Baskerville

DUMAS, Alexandre, O Conde de Monte Cristo

ECO, Umberto, O nome da Rosa

ENDE, Michael, A História Interminável

FAULKNER, William, O Som e a Fúria

FOLLETT, Ken,  Os Pilares da Terra

FRANK, Anne, Diário de Anne Frank

GAARDER, Jostein, O Mundo de Sofia

HEMINGWAY, Ernest,  Por Quem os Sinos Dobram

HESSE, Hermann, Siddhartha

GOETHE, W. von, Werther

HUXLEY, Aldous, O Admirável Mundo Novo

KAFKA, F., Metamorfose

KIPLING, Rudyard, Kim

LODGE, David, Um Almoço Nunca é de Graça

LONDON, Jack, Contos do Pacífico

LORCA, F. Garcia, A Casa de Bernarda Alba

MARQUEZ, Gabriel Garcia, Cem Anos de Solidão

MOLIÈRE, J.-B., Dom João

MAUGHAM, S.,  O Fio da Navalha

NERUDA, Pablo,  Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada

OBAMA, Barak,  A minha Herança

ORWELL, George, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro

POE, Edgar Allan,  Contos Fantásticos

RILKE, Rainer Maria,  Cartas a um Jovem Poeta

SAGAN, Carl, Contacto

SEPÚLVEDA, Luís, O Velho que Lia Romances de Amor

SEPÚLVEDA, Luís, História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar

SHAKESPEARE, William, Romeu e Julieta

SHAKESPEARE, William, Hamlet

SÜSKIND, Patrick, O Perfume

STEINBECK, John,  A um Deus Desconhecido

SWIFT, J., Viagens de Gulliver

SHAKESPEARE, William, Romeu e Julieta

TOLKIEN, J. R. R., O Senhor dos Anéis

TOLSTOI, Leão,  Contos

TWAIN, Mark, Tom Sawyer

LLOSA, Mário Vargas, Quem Matou Palomino Molero

WILDE, Óscar, O Retrato de Dorian Gray

WILLIAMS, Tennessee,   A Noite da Iguana e Outras Histórias

XINGUIAN, Gao, Uma Cana de Pesca para o meu Avô

YOURCENAR, Marguerite, Contos Orientais

NOTA: Cada aluno poderá apresentar as suas sugestões que serão (ou não) aceites consoante a natureza e valor da obra proposta.

Já estreou O Discurso do Rei

Obviamente não podia deixar de assinalar a estreia do filme que pode dar um Óscar a um dos meus actores de cinema preferidos – Colin Firth.

Vão ver!…

Aqui ficam outros títulos  interpretados  por este excelente actor:

1.     Valmont (1989)

2.    Orgulho e Preconceito (série da BBC – 1995) baseada na obra de Jane Austen.

3.    O Paciente Inglês (1996)

4.     Shakespeare in Love (1998)

5.      My Life so Far  (1999)

6.     O Diário de Bridget Jones (2001)

7.    A Importância de se Chamar Ernesto (2002), baseado na obra de Oscar Wilde.

8.     Girl With a Pearl Earing (2003),  sobre a vida e obra do pintor holandês Johannes Vermeer.

9. Bridget Jones – The Edge of Reason (2004)

10.     Onde está a verdade?  (2005)

11.   Then She Found Me (2007)

12.    Easy Virtue (2008)

13.    Génova (2008)

14.   Mamma Mia!(2008)

15.   A Single Man (2009)

16. O Discurso do Rei (2010)

Como o prometido é devido, aqui fica o poema de Fernando Pessoa – Chuva Oblíqua, na íntegra.

 

 

 

 

 

I

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito

E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios

Que largam do cais arrastando nas águas por sombra

Os vultos ao sol daquelas árvores antigas…

 

O porto que sonho é sombrio e pálido

E esta paisagem é cheia de sol deste lado…

Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio

E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol…

 

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo…

O vulto do cais é a estrada nítida e calma

Que se levanta e se ergue como um muro,

E os navios passam por dentro dos troncos das árvores

Com uma horizontalidade vertical,

E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro…

 

Não sei quem me sonho…

Súbito toda a água do mar do porto é transparente

E vejo no fundo, como uma estampa enorme que já lá estivesse desdobrada

Esta paisagem toda, renque de árvores, estrada a arder em aquele porto,

E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa

Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem

E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,

E passa para o outro lado da minha alma…

II

Ilumina- se a igreja por dentro da chuva deste dia,

E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça…

 

Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,

E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro…

 

O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes

Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar…

Soa o canto do coro, latim e vento a sacudir-me a vidraça

E sente-se chiar a água no facto de haver coro…

 

A missa é um automóvel que passa

Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste…

Súbito vento sacode em esplendor maior

A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo

Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe

Com o som de rodas de automóvel…

 

E apagam-se as luzes da igreja

Na chuva que cessa…

III

A Grande Esfinge do Egipto sonha por este papel dentro…

Escrevo – e ela aparece-me através da minha mão transparente

E ao canto do papel erguem-se as pirâmides…

 

Escrevo – perturbo-me de ver o bico da minha pena

Ser o perfil do rei Cheops…

De repente paro…

Escureceu tudo… Caio por um abismo feito de tempo…

 

Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro

E todo o Egipto me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena…

Ouço a Esfinge rir por dentro

O som da minha pena a correr no papel…

Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,

Varre tudo para o canto do tecto que fica por detrás de mim,

E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve

Jaz o cadáver do rei Cheops, olhando-me com olhos muito abertos,

E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo

E uma alegria de barcos embandeirados erra

Numa diagonal difusa

Entre mim e o que eu penso…

Funerais do rei Cheops em ouro velho e Mim!…

IV

Que pandeiretas o silêncio deste quarto!…

As paredes estão na Andaluzia…

Há danças sensuais no brilho fixo da luz…

 

De repente todo o espaço pára…,

Pára, escorrega, desembrulha-se…,

E num canto do tecto, muito mais longe do que ele está,

Abrem mãos brancas janelas secretas

E há ramos de violetas caindo

De haver uma noite de Primavera lá fora

Sobre o eu estar de olhos fechados…

V

Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do carroussel.

Árvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim…

Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora,

E as luzes todas da feira fazem ruído dos muros do quintal…

Ranchos de raparigas de bilha à cabeça

Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol,

Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,

Gente toda misturada com as luzes das barracas, com a noite e com o luar,

 

E os dois grupos encontram-se e penetram-se

Até formarem só um que é os dois…

A feira e as luzes da feira e a gente que anda na feira,

E a noite que pega na feira e a levanta ao ar,

Andam por cima das copas das arvores cheias de sol,

Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,

Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça,

E toda esta paisagem de Primavera é a lua sobre a feira,

E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol…

 

De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira

E, misturado, o pó das duas realidades cai

Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos

Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar…

Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos…

As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira,

Sozinha e contente como o dia de hoje…

VI

O maestro sacode a batuta,

E lânguida e triste a música rompe…

 

Lembra-me a minha infância, aquele dia

Em que eu brincava ao pé dum muro  de quintal

 

Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado

O deslizar dum cão verde, e do outro lado

Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo…

 

Prossegue a música, e eis na minha infância

De repente entre mim e o maestro, muro branco,

Vai e vem a bola, ora um cão verde,

Ora um cavalo azul com um jockey amarelo…

 

Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância

Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,

Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal

Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo…

(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos…)

 

Atiro-a de encontro à minha infância e ela

Atravessa o teatro todo que está aos meus pés

A brincar com um jockey amarelo e um cão verde

E um cavalo azul que aparece por cima do muro

Do meu quintal… E a música atira com bolas

À minha infância… E o muro do quintal é feito de gestos

De batuta e rotações confusas de cães verdes

E cavalos azuis e jockeys amarelos…

Todo o teatro é um muro branco de música

Por onde um cão verde corre atrás da minha saudade

Da minha  infância, cavalo azul com um jockey amarelo…

E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,

Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa

Com orquestras a tocar música,

Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei

E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância…

 

E a música cessa como um muro que desaba,

A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,

E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,

Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,

E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,

Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo…