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Modernismo

Eduardo Mota digitalizou

Amadeo de Souza-Cardoso, Les Chevaliers

Modernismo

 

         A definição e caracterização periodológica de MODERNISMO apresenta dificuldades só comparáveis às que encontrámos quando analisámos o Romantismo; pela sua abrangência, pela sua dispersão geocultural e até pelas suas contradições internas, o Modernismo  constitui, antes de mais, um conceito difuso. (…) Vicky Mahaffey escreve : “ No seu sentido positivo, ‘modernismo’ assinala um corte revolucionário com ortodoxias estabelecidas, uma celebração do presente e uma investigação experimental do futuro. Como valor negativo, ‘modernismo’ tem conotada uma incoerente e mesmo oportunista heterodoxia, uma anulação da disciplina da tradição.”

 

         Numa perspectiva de largo alcance, pode dizer-se que o Modernismo se estende desde finais do século XIX ( cerca de 1890, segundo alguns autores), até depois da Segunda Guerra Mundial, mesmo até finais dos anos 50, quando vão aflorando teorias e práticas culturais classificadas como pós-modernistas.

         Numa perspectiva mais restrita, o Modernismo estende-se das vésperas da Primeira Guerra Mundial até à Segunda Guerra Mundial, sendo que os anos 20 e 30 são o seu tempo mais fecundo.

         Em Portugal, o aparecimento e a maturação do Modernismo relacionam-se com a relevância cultural assumida por algumas revistas e naturalmente pelos autoras que nelas colaboraram.

         Os marcos decisivos da afirmação modernista são constituídos em 1915, pelos dois números da revista Orpheu ( um terceiro já em provas acabou por não vir a público).

         A par desta, outras revistas servem de lugar de manifestação literária e doutrinária  do  Modernismo  português:  Centauro  e  Exílio ( 1916),  Contemporânea ( 1922-1926) e Athena (1924- 1925); entre 1927 e 1940 publica-se a revista Presença, que não só faz ecoar o legado cultural da Geração do Orpheu como, segundo alguns autores, pode ser considerada o órgão cultural do segundo Modernismo português.

 

         Por outras palavras: a pluralidade de “ ismos” que povoam o Modernismo determina também uma interacção de linguagens em que artes plásticas, literatura, arquitectura, artes gráficas, publicidade, cinema, etc., estritamente interagem e se complementam: a actividade de Almada Negreiros como escritor e como artista plástico, a colaboração de Santa-Rita Pintor no n.º2 de Orpheu e no Portugal Futurista, a atenção que Almada consagrou, como crítico e polemista, à obra de Amadeo de Souza-Cardoso, também a presença, em poemas de Mário de Sá-Carneiro ( designadamente no poema “Manucure”), de fragmentos de textos publicitários, de títulos de imprensa, etc., são manifestações muito significativas dessa interacção de linguagens.

(…)

          Directamente correlacionados com este tempo de convulsões sociais, de conflitos armados, de regimes políticos autoritários – com alguns dos quais vieram a colaborar escritores modernistas: Almada Negreiros, Marinetti, Ezra Pound, etc.-, os temas dominantes do Modernismo aprofundam os sentidos nucleares que o constituem. A euforia do moderno é, naturalmente, um desses temas, um moderno que é o de realidades civilizacionais trepidantemente novas e pujantes, celebradas à maneira de Walt Whitman; em muitos casos, contudo, essa euforia desliza rapidamente para o tédio, situado, conforme ficou referido, no estádio final de uma evolução que chega a desembocar na dissolução do sujeito (“ Não sou nada. Nunca serei nada”, dizem os versos de abertura de “ Tabacaria”) e no suicídio também já mencionado; o que vem a ser o desenlace patético de um esforço de autoconhecimento, desenvolvido ( muitas vezes de uma forma obscura, interiorizada e desligada do social) pelo homem e pela personagem do Modernismo. De um modo geral, o que estes sentidos temáticos denunciam é uma aguda crise do sujeito, projectada em tópicos como a máscara (“Quando quis tirar a máscara,/Estava pegada à cara”, diz Álvaro de Campos na Tabacaria), o retrato, o espelho – em que Vitangelo Moscarda de Pirandello se descobre “ Um, ninguém e cem mil” – e a procura labiríntica do outro em si mesmo.

Carlos Reis, O Conhecimento da Literatura ( Texto com supressões)

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 Indicação dos limites cronológicos do Modernismo:

Perspectiva alargada:

®    desde finais do século XIX ( + 1890) até finais dos anos 50.

Perspectiva mais restrita:

®    desde vésperas da Primeira Guerra Mundial até à Segunda Guerra Mundial.

 

O papel das revistas literárias no nascimento, consolidação e difusão do Modernismo em Portugal, com especial relevo para o Orpheu.

 

A interacção de linguagens estéticas como uma das características dominantes do Modernismo.

        Levantamento dos temas dominantes do Modernismo:

®      a euforia do moderno que rapidamente desliza para o tédio existencial;

®      a dissolução do sujeito que conduz, muitas vezes, ao suicídio;

®      o esforço patético do autoconhecimento;

®      a crise aguda do sujeito projectada.

·     na máscara

·     no retrato

·     no espelho

·     na procura labiríntica do outro em si mesmo.

î fragmentação do eu

 

         É ainda de referir, e continuando a seguir Carlos Reis, que o Modernismo se caracteriza, pois, por uma viragem para o interior do sujeito, para a corrente da consciência, quase considerada impossível numa época pré-freudiana. Esta viragem introspectiva causa a ruptura dos laços convencionais do indivíduo com a sociedade.

         Para além destes aspectos, o Modernismo leva a cabo uma espécie de reinvenção da linguagem, ao nível da forma, da expressão, introduzindo no domínio do literário uma pretensa desconstrução sintáctica e as linguagens jornalística e publicitária.

 

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